janeiro 21, 2007

Morte

Posted in Posts às 3:05 pm por Antonio

Olá, caro leitor.

Havia um homem, cujo nome eu desconhecia até pouco tempo, que sempre estava sentado na mesma cadeira no buteco da esquina. Mesmo nas segundas-feiras, dias em que o buteco fechava, ele podia ser encontrado conversando e bebendo no bar da rua de baixo aqui de casa. Por algum motivo desconhecido, sempre que eu passava por lá a gente se cumprimentava. Todos os dias eu passava lá voltando para casa, e trocávamos um “oi”, “e aí?”, “beleza?”, ou coisas do tipo, e isso acontecia faz mais de dois anos. Ontem, no entanto, descobri que ele tinha falecido há uma semana. Já sabia que ele estava com problemas devido à bebedeira, inclusive ele ficou em coma durante algum tempo. A notícia da morte me espantou, embora fiquei grato pela forma com a qual ela me foi dada. Não sei se você sabe, caro leitor, mas eu realmente acho muito constrangedor alguém vir me falar que alguém morreu, é o tipo de notícia que nunca devia ser dada pessoalmente. Além de eu não saber que feição devo esboçar e o que devo falar, mal sei como devo me sentir. No caso do “carinha da esquina”, encontrei algo como um convite para o velório. Vi ele jogado em cima da televisão da sala, e o que despertou minha atenção foi uma foto do homem estampada em um dos lados. No outro lado, havia detalhes de onde ocorrera o enterro, da data de falecimento e o nome do homem, que finalmente fiquei sabendo. O fato é que toda essa história me abalou de alguma maneira, e despertou em mim, depois de muito tempo, o terror da morte.

Vou contar algo aqui que nunca falei com ninguém, então sinta-se honrado em saber. Toda criança possui medos absurdos, como monstros debaixo da cama ou no armário, medo de escuro e outras coisas mais. Bem, no meu caso, toda essa história de medos foi diferente, como foi praticamente tudo na minha infância estranha. Nunca tive medo de monstros e coisas absurdas, apenas de escuro, mas passou rapidamente. Tive medo de coisas que de algum modo era lógicas para mim. Deixe-me explicar melhor. Assistir a um filme com monstros mal-feitos não me dava medo na hora de dormir, pois estava na cara que eram falsos. Sempre tive medo de coisas mais concretas, que achava que apresentavam um perigo real, como medo de altura, medo de ladrões ou de pessoas estranhas. Uma dessas minhas crises de medo foi a mais interessante, me lembro muito bem, foi medo da morte. Eu tinha lá pelos meus oito anos, e estava deitado na minha cama, quarto escuro, hora de dormir. Nisso comecei a pensar como seria se eu morresse. Como sou de uma família religiosa, pensei como seria a vida depois da morte. Pensei em como seria o céu, como seria um lugar sem nada com o qual estou acostumado, mas até aí era apenas um pensamento e não me causava pavor algum. De repente comecei pensar nas coisas que tinha feito de errado e a ter pensamentos sobre o inferno, afinal, e se eu fosse pra lá? Comecei a pensar em dor, fogo, um lugar horrível com pessoas gritando, e, caso fosse pra lá, ficaria eternamente. Coisas eternas sempre me causaram um certo pavor, desde essa época, essas coisas que duram para sempre e sempre e sempre, coisas sem fim. Hoje me impressiono com os pensamentos daquela época, afinal, crianças normais não deveriam pensar nessas coisas, nem com tanta seriedade. Nessa hora já estava com bastante medo, e comecei a olhar pro quarto com medo, não me lembro de quê. Depois disso minha fé foi um pouco abalada, e note que eu era uma criança, e isso não é nada normal. Comecei a pensar na possibilidade de nada daquilo existir. Imaginei eu apenas dormindo na hora de morrer, mas sem acordar nunca mais. Como seria se eu simplesmente apagasse e deixasse de existir na hora de minha morte? Isso me causou mais pavor ainda, deixar de existir, embora incompreensível pra mim naquela época (e ainda hoje, na verdade), era algo que me causava um pânico horrível. Lembro que nessa hora eu estava realmente com medo. Sabe quando você começa a suar, mas sente seu corpo gelado, aquela típica sensação de medo? Agarrei-me ao coberto, estar coberto fazia eu me sentir seguro. Aí não lembro o que aconteceu, só sei que adormeci, e nunca mais tive uma noite como aquela.

Anos se passaram e aqui estou eu, novamente pensando no mesmo assunto, agora com a mente (aparentemente) mais madura. Embora eu acredite que exista algo depois da morte, não consigo perder o medo dela. Nesse ponto do texto, se eu estivesse discursando tudo isso que estou escrevendo e houvesse uma platéia com direito a comentar, aposto que pelo menos uma pessoa iria levantar a mão para dar sua opinião. Essa pessoa, cética, diria que eu era infantil, e que acreditar em algo idiota como vida após a morte era apenas uma esperança, uma forma inventada para as pessoas conseguirem lidar com a destruição inevitável. Quanto a parte da esperança, eu concordo plenamente. Uma das razões de acreditar em vida após a morte é realmente a esperança de que ela exista, e o medo de deixar de existir, pelo menos para mim. Claro que há outras razões religiosas, mas não comentarei elas aqui. Note que eu disse acreditar em vida após a morte, mas não tenho fé absoluta. Nessa hora, uma outra pessoa, uma religiosa dessa vez, iria levantar a mão e dizer que não havia motivos pra me preocupar, que eu devia fortalecer minha fé e seguir o caminho de Deus, sem medo com o que aconteceria depois que eu morresse. Concordaria plenamente com essa pessoa, mas o fato é que não consigo fazer isso, ter certeza absoluta e ficar sem medo. Minha fé realmente está um pouco fraca ultimamente (e note que isso é mais uma confissão de um fato que ninguém conhecia), principalmente quanto a um assunto delicado como a morte. Eu realmente tenho medo de morrer, medo de deixar de existir, e, embora me classifique como uma pessoa religiosa, não teria coragem de dar minha vida por outra pessoa. Note que estou sendo totalmente sincero nesse depoimento, e por favor, leitor, caso for uma pessoa religiosa, não me reprima por causa disso, não me acuse. Dar a vida por outra pessoa realmente não é algo fácil, já pensou nisso?

Mas toda essa história de morte é algo estranho. Pessoas que você ama, odeia, ou simplesmente ignora, um dia desaparecerão, assim como eu e você, meu caro leitor. Já parou pra pensar nisso? Você não fica com nem um pouco de medo?

O fato é que novamente viajei bastante nos assuntos e acabei parando bem longe de onde queria chegar, mas gostei do texto. Por hoje, acabo por aqui. Só desejo que Deus abençoe a alma do “carinha da esquina”, que ele descanse em paz. De certa forma sentirei falta dele quando passar pelo buteco.

Pra terminar, uma pequena citação, algo que não costumo fazer. O trecho é de “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna:

“…encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre”.

Que Deus abençoe a todos.