agosto 18, 2006

Ensaio culinário

Posted in Posts às 9:05 pm por Antonio

Olá leitor,

Certo dia estava eu, um cara desajeitado e inexperiente em qualquer atividade manual, sem nada para fazer em uma tarde ensolarada. Resolvi então fazer alguma coisa nova, qualquer que fosse. Colocando meu cérebro para funcionar, afoguei-me em minhas idéias em busca de uma atividade divertida e não muito trabalhosa para espantar o tédio. Pensando, pensando… Eureca! Decidi cozinhar. Essa era realmente uma boa idéia, afinal, cozinhar parecia legal, e não podia ser tão difícil, já que vejo muitas vovós que nunca foram a escola cozinhar. Com certeza eu, um (cof cof) futuro engenheiro não teria dificuldades em executar uma tarefa tão simples como cozinhar. Além do mais, ao final de minha super tarefa, teria algo gostoso pra comer (pressupondo que tudo ia correr como o esperado). Ok, decidido, usaria todos os meus dotes culinários (que não tinham sido aprimorados desde meu primeiro miojo) e faria um… uma… é… o que faria? Droga, mais um problema. Uma atividade recreativa de final de semana estava exigindo mais recursos cerebrais do que o esperado. Certo, mais uma sessão de pensamentos. Perguntei-me o que as grandes vovós cozinheiras fizeram na primeira vez que cozinharam… Ah, um bolo, claro! Sim, um bolo era perfeito. O objetivo estava decidido, faltava agora o planejamento. Mentalmente, esquematizei os passos que eu deveria seguir para a confecção do meu primeiro bolo:

– Obtenção da lista de ingredientes e instruções para preparo. (passo 1)
– Obtenção e separação dos ingredientes. (passo 2)
– Mistura dos ingredientes. (passo 3)
– Assamento (me pergunto se essa palavra existe…) do bolo. (passo 4)

Agora que o planejamento estava concluído, estava a hora de “botar a mão na massa”! (literalmente! Entendeu a brincadeira com o dito popular? Hein? Hein? Ah, esquece…).

Passo 1: Em busca da receita lendária

Eu, como uma típica pessoa preguiçosa dos tempos modernos, resolvi fazer uso de tecnologia avançada para alcançar meu objetivo com menor despêndio possível de energia. Ao invés de procurar na pilha de livros de minha mãe, resolvi usar meu computador para achar a receita de um bolo básico na internet. Certo, entrei no Google e comecei a procurar. Bolo baiano de mandioca e coco… não parece ser bom… bolo de chocolate com cachaça… urgh, sem comentários… bolo prestígio… me pergunto se a pessoa que inventou essa receita paga alguma patente… bolo de chocolate molhadinho… que nome bizarro… bolo de cenoura com cobertura de chocolate… seria interessante se não fizesse uso de artes avançadas como ralar cenoura e derreter a cobertura… bolo mármore… pensei em pedras nesse momento… bolo de casamento… algo me diz que não seria fácil de fazer… ah, achei, bolo normal! Uma receita fácil e clássica desenvolvida por algumas dezenas de vovós, passada de geração em geração e postada por uma boa alma anônima. Certo, passo 1 completado. So far so good.

Passo 2: Um exercício de estequiometria… separação dos reagentes

Comecei então a separar os ingredientes. Primeiro os ovos, quatro deles, ok. Agora duas xícaras de açúcar… mas que raio de medida seria essa? Pra começar, por acaso o volume das xícaras eram padronizadas? Duvido. De qualquer forma, mesmo que todas as xícaras do mundo fossem idênticas, medir algo compressível como pó em volume é algo estúpido, afinal, dependendo da compactação dos grãos, a massa de todo açúcar, que é o que realmente interessa, pode variar totalmente no mesmo volume. Resumindo, não dava pra saber a quantidade exata de açúcar que eu deveria colocar, pois se quisesse podia comprimir e colocar o dobro do que aparentemente era o certo. Embora insatisfeito com as instruções da receita secular das vovós, acontecesse o que fosse, eu tinha que terminar meu trabalho, mesmo que perecesse tentando. Certo, menos drama e mais trabalho. Supus então que a xícara que estava no meu armário era do tamanho ideal, e que o volume de açúcar correto era o volume de uma xícara com o mínimo de compressão possível. Será que essa era a mesma quantidade que as vovós cozinheiras usavam? Nunca saberei. Com certeza elas seriam péssimas químicas, com todos esses problemas na descrição dos ingredientes. Não me espanta que existam bons e maus cozinheiros. Mesmo seguindo a mesma receita, a margem de tolerância para as quantidades e métodos é gigante, o que transforma cozinhar em uma arte e o cozinheiro em um mero sortudo dependente de seu feeling. Se tudo fosse documentado como deveria, qualquer um poderia ser um excelente cozinheiro, era só seguir o algoritmo e pronto.

Nesse instante, em meio aos meus devaneios bizarros e sem (muito) sentido, minha mãe aparece na cozinha, entra e observa a situação. Pergunta então o que estou fazendo, e eu respondo que era um bolo. Nenhuma palavra mais saiu de sua boca, mas seu discreto sorriso pareceu me dizer: “Você está louco? Você nunca fez isso antes, que coisa estúpida! Ainda por cima está sujando minha cozinha!”. Depois de não ter dito isso, ela saiu da cozinha e deixou-me a sós com a comida novamente.

Voltei a separação dos ingredientes. Três xícaras de farinha de trigo (malditas medidas inexatas!), um copo de leite fervendo (pareceu-me uma boa idéia fervê-lo apenas na hora em que fosse usar), uma pitada de sal (pitada definitivamente não é uma unidade de medida do sistema internacional…) e uma colher de fermento… opa, fermento? Onde arranjaria isso? Recorri à fonte inesgotável de conhecimento e eterno símbolo da sabedoria: minha mãe. Qual não foi minha surpresa em saber que fermento era aquele pó que era vendido naquela embalagem vermelha? Ele é conhecido apenas pelo nome da marca, que não mencionarei aqui pois não recebo para fazer propaganda. Que babaquice essa minha decisão, afinal, o nome da marca já apareceu na mente de todo mundo. De qualquer maneira, não estou com vontade de fazer propaganda para a minha meia dúzia de leitores. Desculpe, tentarei diminuir o ritmo de cortes de assunto daqui em diante.

Um observador que passasse pela cozinha veria todos os ingredientes separados em muito mais utensílios do que o necessário, alguns restos de alimento esparramados pela cozinha (por mim) e um pseudo-cozinheiro lamentando-se por não estar fazendo algo menos trabalhoso, como olhar nuvens ou ter sua mente poluída por alguns programas babacas de televisão.

Passo 3: And the battle begins!

Chegou então a hora mágica, a hora da transformação dos alimentos e redenção de um homem. Ficou meio heróico, né? Estou me superando nas babaquices…

Certo, eu tinha os ingredientes, supostamente nas quantidades corretas, e a lista de procedimentos, agora era só seguir as instruções. Primeiro passo, bater as claras em neve. Essa frase necessitava de experiência para ser compreendida por completo, afinal, o uso de termos como “clara” e “em neve”, embora amplamente difundidos no mundo culinário, não eram tão comuns para seres como eu. Prosseguindo… Peguei os quatro ovos e preparei-me para quebrá-los, não podia ser tão difícil. Primeiro ovo, executei algumas batidas para fissurar a casca, enfiei o dedo e abri ele. Ignorando a enorme quantidade de casca que caiu junto com o conteúdo do ovo, o procedimento foi um sucesso. Segundo ovo… (pensei se haveria chances de eu encontrar um pintinho mal formado ou algo assim dentro do ovo, seria realmente desagradável)… certo, menos cascas. Terceiro ovo… (ah não, não havia riscos, esses ovos provavelmente não eram fecundados)…um pouco melhor, seria perfeito se não tivesse espirrado metade do líquido pra fora. Quarto ovo… (que alívio, com certeza não havia pintinhos aqui dentro)…perfeito! Viu, leitor, eu estava ficando bom naquilo! Certo, agora era só bater as claras (minha incrível perspicácia associou “clara” com “parte CLARA do ovo”, sem isso teria me confundido todo). Para esse passo, teria que fazer uso de um incrível aparelho: a batedeira. Parecia fácil de usar, até as vovós cozinheiras sabiam operar esse maravilhoso fruto da tecnologia. Montei de uma forma meio desajeitada (algo vergonhoso). Descrever o funcionamento da batedeirera me pareceu muito mais fácil do que operá-la. Como disse um amigo na faculdade: “engenheiro é uma bosta mesmo”. Continuando… coloquei as claras, liguei e fui batendo. Nesse momento, pensei em como a expressão “claras em neve” era engraçada. Se você não acha isso, leitor, ignore essa parte e prossiga com a leitura. Depois de eu ter achado que estava bom (já que as vagas instruções da receita não falavam nada sobre isso), juntei as gemas, o açúcar e a farinha. Chegou a hora de colocar o “leite fervendo”. Será que a vovó cozinheira autora dessa receita usou fervendo como “em estado de ebulição” ou “muito quente”? Por vias das dúvidas, esquentei no microondas de qualquer jeito e coloquei na vasilha, já estava ficando irritado com tanto trabalho. Penúltimo ingrediente, o sal. Por que raios precisava colocar sal se meu bolo era doce? Para mim isso não fazia sentido. De qualquer maneira, juntei a precisa “pitada” de sal. Desliguei a batedeira e lá estava a massa, maravilhoso fruto de meu trabalho. Juntei o fermento, e misturei suavemente, conforme as instruções. Nesse momento fiquei imaginando um monte de microorganismos comendo meu bolo e inflando-o com gases, e sendo assassinados pouco tempo depois pelo calor do forno. Percebi rapidamente que isso não ia acontecer, era um fermento sintético. Mais um comentário inútil, mas não tem problema. Continuemos…

Hora de untar a forma. Como se fazia isso? Novamente recorri a minha mãe. Depois de algumas explicações e um pouco de sujeira, lá estava a forma untada. Despejei a massa, liguei o forno (elétrico, sem grandes complicações) na temperatura recomendada na receita e coloquei o bolo para assar. Missão quase cumprida.

Passo 4: Depois da tempestade, vem a… sujeira!

Como um típico cara bobo e feliz, fui comer os restos da massa do bolo (que estava muito gostosa, por sinal). Virei meu rosto para a pia e pude notar uma pilha de louça suja, muito mais do que se era necessário para se fazer um bolo, diga-se de passagem. Nesse instante chega minha mãe, dizendo que até poderia lavar a louça, mas que eu tinha que enxugar e guardar. Certo, depois de alguns minutos de pura chatice, tudo estava limpo e impecável.

Voltando ao bolo. Segundo a receita, era para assar até ficar bom. Olhe o cúmulo da falta de informação! Se eu soubesse quando estava bom, com certeza não precisaria da receita! Pergunto-me se a vovó cozinheira inventora dessa receita alguma vez tinha sido apresentada ao relógio…

Em algum momento achei que estava bom e tirei o bolo do forno. Depois de esfriar um pouco (momento de grande expectativa), pude provar minha criação. Realmente estava muito gostoso, além de (desculpe o termo) “fofinho”. Pena que minha família não tenha permitido que ele durasse mais de dois dias…

De qualquer maneira, nesse dia desisti de minha carreira culinária. Talvez um dia você possa me ver cozinhando algo pouco complexo para sobreviver, como nos dias em que minha mãe viaja e eu vivo basicamente de miojos, mas nunca mais me verá cozinhando por hobby. Cozinhar é muito difícil!

E palmas para as vovós cozinheiras!

Que Deus abençoe a todos.

agosto 7, 2006

Proposta de Emprego

Posted in Posts às 10:02 pm por Antonio

Admite-se namorada/futura esposa para tomar conta do coração do escritor desse blog, uma pessoa levemente inteligente, peculiarmente divertida, carinhosa, carente, sensível (note que esse adjetivo não pode ser visto como “viadagem”, visto que o tema dessa proposta exclui qualquer dúvida a respeito da masculinidade do autor) e, em grande parte do tempo, legal.
As vagas são limitadas (apenas uma, na verdade), e embora a contratação esteja sendo feita em regime de urgência, pede-se às interessadas para que honrem com o compromisso. Experiência não necessária, de preferência inexistente.

Pré-requisitos:

– Ter entre 16 e 25 anos.
– Gostar de conversar sobre os mais diversos assuntos, inclusive futilidades (desde que tenha consciência que o assunto é realmente fútil). Note que falar apenas futilidades exclui automaticamente a candidata.
– Ser capaz de dar um sorriso doce quando necessário.
– Ser carinhosa.
– Ser capaz de me ajudar a resolver os mais diversos problemas, e ter orgulho fraco o suficiente para permitir que eu ajude nos seus.
– Ser fiel, tanto no relacionamento como nas promessas que fizer.
– Crer em Deus, ou no mínimo, ser uma pessoa bondosa.
– Gostar de mim (provavelmente todas as mulheres da face da Terra serão reprovadas nesse quesito).

Qualidades adicionais serão examinadas com atenção no dia da entrevista, no entanto, devem ser inseridas no currículo para uma pré-análise. Elas poderão ser usadas como critério de desempate.

Disponibilidade:

Algumas horas de atenção e dedicação semanais, sendo que a contratada poderá executar parte de suas tarefas a longa distância, por meio de telefone ou outras formas de comunicação. Horários flexíveis.

Remuneração:

Muito amor, carinho, e modéstia a parte, uma boa campanhia. Incentivos extras:

– O dono do coração em questão será um engenheiro, o que implica que provavelmente terá uma quantidade considerável de dinheiro no futuro. No futuro.
– Embora não tenha carro próprio, o dono do coração é um motorista em potencial.

Note que as questões materiais citadas servem apenas como incentivo, ou seja, candidatas interessadas apenas nelas serão automaticamente desclassificadas.

– A contratada receberá, além de tudo, um ombro amigo sempre disponível para ouvir e ajudar.

Informações finais:

As interessadas devem mandar seus currículos o mais rápido possível. As aprovadas na seleção inicial receberão um telefonema para marcar a entrevista, no local que desejarem, com todos as despesas por conta do contratante.

(I wonder if someone is gonna be interested on that freak job…)

Que Deus abençoe a todos.